terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Casa de amigo de Bolsonaro não condiz nem com os R$ 23 mil que recebia

No processo em que a ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro, Ana Cristina Siqueira Valle disputava a guarda de um filho dos dois, uma informação em particular chamou a atenção: segundo declarou Ana Cristina naquele ano de 2008, Bolsonaro tinha uma renda mensal do deputado chegava a R$ 100 mil reais – R$ 183 mil em valores atualizados.


Na época, Bolsonaro recebia R$ 26,7 mil como deputado e R$ 8,6 mil como militar da reserva. No processo, Ana Cristina informava que Bolsonaro tinha outras fontes de renda. Mesmo se recusando a explicar a origem desses recursos, a ex-mulher de Bolsonaro garantiu que a renda dele chagava aos R$ 100 mil reais mensais. (aqui).

Bolsonaro já teria se separado de outra ex-mulher, Rogéria Bolsonaro, por motivos financeiros, Rogéria se elegeu vereadora em 1996, com o apoio do então marido. Teve dois mandatos. Segundo rumores, ela não teria concordado em 'compartilhar' rendimentos decorrentes do mandato. Bolsonaro alega que se separou da mãe de seus filhos por ela não ter seguido suas orientações políticas. E então deputado diz que se irritava quando Rogéria Bolsonaro deixava de consultá-lo antes de votar alguns projetos. O casal acabou se separando e, depois de uma briga judicial pelo uso do sobrenome, Rogéria tentou mais uma reeleição. Dessa vez, pelo PMDB. Sem a ajuda de Jair, não conseguiu e abandonou a política.

Rumores à parte, é compreensível que apoiadores do presidente costumam refutar qualquer acusação que paire sobre Bolsonaro e seus familiares. No entanto, mesmo para os que preferem o jornalismo-pollyanna, é preciso considerar as informações disponíveis para analisar não apenas as acusações, como também oferecer um parâmetro das denúncias envolvendo o novo chefe do executivo.

Há poucos dias, uma investigação da Polícia Federal sobre um esquema criminoso envolvendo deputados estaduais da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, acabou resvalando no deputado Flavio Bolsoanro, e, consequentemente no presidente Bolsonaro. A operação da Lava Jato que culminou na prisão de dez deputados cariocas revelou que um colaborador de Flavio Bolsonaro movimentou mais de R$ 1.2 milhão em uma conta criada para, supostamente, centralizar depósitos de cerca de oito assessores do filho de Bolsonaro.

Assim como o caixa 2, o hábito de lotar gabinetes com assessores e ficar com parte de seus salários é, infelizmente, algo muito comum entre a classe política. A investigação conduzida pelo Ministério Público Federal sugere que o colaborador do filho de Bolsonaro, Fabrício Queiroz, tinha a função de administrar parte do salário de assessores de Flavio e de seu pai, Jair Bolsonaro. O ex-PM é amigo de Bolsoanro há 34 anos. Sua filha, Nathalia Queiroz, atuava como secretária parlamentar no gabinete de Jair Bolsonaro em Brasília. Nathalia transferiu a maior parte de seus rendimentos para a contra administrada por Queiroz, cerca de R$ 84 mil que ganhou ao longo de um ano como secretária de Bolsonaro.

A investigação apurou que Queiroz fez pagamentos a Bolsonaro, via Michele Bolsonaro. O presidente assumiu que recebeu, via esposa, cerca de R$ 40 mil de Fabrício Queiroz. Bolsonaro afirmou que o dinheiro era referente a uma dívida que o amigo tinha com ele, mas admitiu que não informou sobre a entrada dos recursos em sua declaração do Imposto de Renda.

O  ex-PM tinha uma renda de cerca de R$ 23 mil.

Foragido desde o início do escândalo do Coaf, Fabrício Queiroz mora em uma casa simples e sem pintura externa, em um beco no bairro da Taquara, na Zona Oeste do Rio, revelou O GLOBO nesta terça-feria, 11. Queiroz tinha praticamente toda a família, incluindo a mulher e duas filhas, empregadas no gabinete de Flavio Bolsonaro. Somando todas as supostas rendas, o total poderia ultrapassar a casa dos R$ 50 mil mensais.

O problema é que a moradia de Queiroz não conidz com esta renda. Segundo a reportagem de O Globo, "Na viela onde Queiroz mora com a mulher, Márcia Aguiar, os imóveis são colados uns aos outros. No beco há varais improvisados do lado de fora das casas, fios emaranhados e canos aparentes. Na casa de Queiroz, um adesivo rasgado com as fotos do presidente eleito Jair Bolsonaro e de seu filho Carlos, vereador no Rio, está colado na fachada. No segundo andar, que tem a laje sem revestimento, tapetes secavam no parapeito ainda sem janela".

Logo após o escândalo, toda a imprensa tentou entrar em contado com o amigo de longa data do presidente Bolsonaro. A reportagem esteve na segunda-feira na residência de Queiroz, mas não encontrou nem ele e nem a mulher, Márcia. Vizinhos confirmaram que o casal vive na casa. O chefe de gabinete de Flávio, Miguel Angelo Braga, admitiu que elas não foram à Alerj por estarem tratando de suas defesas:

— Estão buscando informações para os esclarecimentos que já estão com data marcada para ser prestados (ao MP). Não estão aqui pelo assédio da imprensa. Não estão podendo vir pelo constrangimento.

É impossível não levantar determinados questionamentos, diante da precariedade da moradia de Queiroz e sua família. O ex-PM, sua mulher e as duas filhas teriam ficado com todo o dinheiro que recebiam como funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro ou teriam repassado parte de seus rendimentos para a conta administrada por Queiroz?

A casa de Queiroz, cujo valor de mercado não deve passar de R$ 100 mil, não condiz com sua renda. No entanto, a família de Bolsonaso acumulou ao longo dos últimos anos nada menos que 13 imóveis em bairros como a Barra da Tijuca, Copacabana e Urca. Quem mora no Rio de Janeiro sabe que um imóvel nestes bairros não custa menos de R$ 1 milhão.

A verba de gabinete de um parlamentar ultrapassa a casa dos R$ 100 mil mensais. Infelizmente, muitos desempregados se sujeitam a aceitar cargos, abrindo mão de parte do salário. A alegação dos políticos é a de que parte dos recursos servem para assegurar novos mandados e, conseqüentemente, a manutenção dos funcionários lotados em seus gabinetes.

É uma realidade suja? É. Mas é uma realidade, na maioria dos casos.

Imprensa Viva

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